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Exposição “DEVIA HAVER SOL”

- Walden ou a vida nos bosques de Henry David Thoreau

O que expõe uma exposição? Uma exposição representa ou expressa? – o quê? Expor: uma aptidão? Uma fractura? Um gozo? Um experimentar? Um silêncio? Um olhar, duplo, sobre si e sobre o mundo em volta, ou o mundo dentro? O autodidacta declara-se academicamente incompetente ou desmuniciado de teorias para perorar sobre o assunto. E ainda bem, considera de si para consigo, pois que às artes as tem preferencialmente como impulso, imanência, coisa vital. Do ou sobre o seu ver de dentro, olhando o fora, outros digam se for caso, vendo, olhando, reflectindo o fora, outros digam, entendendo, expondo sobre o exposto os seus pontos de vista, críticos ou acríticos.

Treze obras constituem esta séria a preto e branco, a que encontrei o título «Devia Haver Sol». Tinha repescado ao labirinto das estantes o clássico de David Henry Thoreau, «Walden», e o acaso coincidira (será?) com uma pintura-revelação de um cenário revelando um lago semiobscurecido, lúgubre, nele tudo declinando. Ainda assim, retrato de um caroço de natureza virgem. Enveredava pelo naturalismo mais do que démodé? De modo algum, apenas segui a vereda do puro ir atrás do que a mancha na tela ia sugerindo. Tal como acontece na escrita, é mais o avulso que me encontra do que eu em procura de algo pré-concebido. O branco é a única hipótese para a liberdade pura.

Treze telas, pois, a expressarem uma pincelada que, embora desenhando-se num quadro naturalista, mais se importam com o revelar de uma ambiência do que com qualquer veleidade de cópia ou verismo. Não se trata, portanto, de realismo ou sequer de qualquer outro ismo – interessa, sim, o imo. E o eventual merecimento estético (gozo) que possa o autor encontrar em cada quadro e no todo em geral. O merecimento estético no jogo das sombras, no esgrimir de linhas e formas, no equilíbrio pressentido após deposição do pincel e o autor, distanciando-se da criatura, a olha, observa e sabe nada mais haver a acrescentar. Treze telas a preto e branco – opção lógica por parte de um daltónico? Não por tais motivos. Antes pretendeu retirar a cor ao mundo deliberadamente, tirar cor ao que é cor por definição – a natureza.

E, nisto tudo, que papel às artes se encontra ainda reservado? Qual a função da arte nos dias de hoje, ultrapassados todos os experimentalismos possíveis? Que pode ainda arte e a cultura, de que modo pode ainda ser pulso da impermanência do mundo? Deve a arte, para além de procura e atalho para o outro, ser luta e resistência, alerta e indício? E a arte pela arte, que sentido faz esgotadas todas as paranoias, delírios e quejandos mercantis? Que significa ser contemporâneo? Quanto e o que vale o conceptual? «Devia Haver Sol»; são árvores, água e paisagens, sim, são árvores, água e paisagens! São árvores, água e paisagens, e não brancos vazios prenhes de nada à espera de teses e teorias conceptuais que justifiquem o zero emocional.

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